O Poder do Consumidor Consciente.

Explosão demográfica, aquecimento da atmosfera, aumento da emissão de gases poluentes, efeito estufa, poluição dos rios e mananciais de abastecimento, comprometimento dos lençóis freáticos, desmatamento e erosão do solo, extinção de espécies, desequilíbrio do ecossistema, problemas sociais como a fome, a insalubridade e a miséria. Tudo isso faz parte da crise ecológica que coloca em risco a qualidade da vida humana e do planeta.

Além disso, outra degradação ambiental que coopera para essa situação é o uso abusivo e sem reposição dos recursos naturais, particularmente os não renováveis – petróleo, carvão e outros tipos de minérios – que são essenciais à sobrevivência saudável do planeta e há muitos anos são utilizados para satisfazer as necessidades econômicas, sociais e culturais dos homens.

Mas como explorar os recursos naturais existentes é inevitável para o desenvolvimento industrial e econômico de um país, muita atenção deve ser dada a esta atividade que sempre causa alguma forma de poluição ou dano ambiental. Muitos processos industriais liberam contaminantes no ar, no solo e na água, e a maioria das necessidades energéticas do mundo é atendida pelos combustíveis fósseis, gerados a partir de recursos naturais não renováveis. “Os recursos naturais disponíveis no planeta não são suficientes para permitir uma expansão de produção de bens, serviços e produtos que possam satisfazer toda a humanidade no padrão de consumo idealizado ou desejado pela maioria das sociedades, que é o padrão dos países desenvolvidos” diz Samyra Crespo, coordenadora do Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Usar recursos naturais de forma indiscriminada representa um ônus ao planeta. Portanto, a utilização deve ser feita de maneira equilibrada, contrabalançando as necessidades com o impacto sobre o meio ambiente.

A discussão sobre desenvolvimento, economia de mercado e proteção ambiental começou com o surgimento do movimento ambientalista, nas décadas de 1960 e 1970. Desde então, parte da sociedade percebe que os modelos de produção, distribuição e consumo, concentradores de renda e excludentes, são inviáveis para a convivência justa e pacífica entre todos os seres. Em 1983 as Nações Unidas criaram a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) para avaliar a situação mundial em relação às questões ambientais. Em 1987 esta comissão apresentou à Assembléia Geral da ONU o relatório Nosso Futuro Comum como resultado desse processo. Neste documento discutiu-se pela primeira vez o termo desenvolvimento sustentável, com a proposta inovadora de se trabalhar desenvolvimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental, de forma que as gerações atuais possam satisfazer suas necessidades sem comprometer os recursos para as futuras gerações. Mais tarde, estas questões seriam discutidas na reunião de cúpula sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, organizada pelas Nações Unidas, que ficou conhecida como Rio-92.

Se a proposta do desenvolvimento sustentável é satisfazer as necessidades das gerações presentes, sem comprometer a qualidade de vida das gerações futuras, o que fazer com o atual problema do esgotamento dos recursos naturais em todo o planeta?  Este contexto traz a necessidade de refletir sobre os atuais padrões de consumo da população. “Hoje já existe a noção clara de que tanto os países pobres quanto os ricos devem começar a mudar imediatamente os seus padrões. Pelo simples fato de que não é possível universalizar o modelo de geração de resíduos e de exploração de recursos que hoje sustenta a economia global. Temos um padrão de consumo insustentável”, comenta Samyra Crespo.

A idéia de mudar as formas de consumo vem ao encontro da possibilidade de desenvolver a economia sem degradar mais o meio ambiente e ajudar a construir um ambiente socialmente justo. Em geral, os consumidores desconhecem as conseqüências de suas escolhas diárias para a própria saúde, para o meio ambiente e para a sociedade. É importante entender que cabe a cada um a responsabilidade pelo futuro do planeta.

O processo de consumo deve ser entendido tanto como o ato de compra de um produto ou a utilização de um serviço, uso e descarte de resíduos, incluindo também a escolha da empresa pelo cidadão. A atitude da indústria, durante o processo de produção, também é muito importante. Entende-se que a empresa é uma consumidora de grande porte e deve passar a consumir de forma responsável. Isto significa evitar todo tipo de desperdício no processo de produção, consumir o necessário de energia e água, devolver ao meio os efluentes devidamente tratados, gerar menor quantidade de resíduos possível, reciclar o lixo e diminuir ao máximo o consumo de matéria-prima.

O papel do consumidor responsável
O debate sobre o consumo responsável ou consumo consciente já acontece há décadas, desde as discussões sobre a igualdade dos direitos entre os cidadãos, passando pelo movimento hippie, pela consciência ambiental e pelos direitos dos consumidores. Hoje, o consumo responsável trabalha com a convergência de todos os movimentos existentes. Passou a ser um processo de transformação cultural pelo qual se procura estimular os cidadãos a satisfazerem suas necessidades, expectativas e desejos de consumo sem gerar impactos negativos para si mesmo, para a sociedade e para o meio ambiente. Esta transformação também deve estimular as pessoas para que, através de suas escolhas, tornem as empresas cada vez mais responsáveis. Mas para isso é necessário que o consumidor compreenda a interdependência do sistema econômico, social e ambiental, e entenda ainda que ser um consumidor consciente é fazer do ato de consumo um ato de cidadania.

Consumo conscente é o conjunto das relações de consumo pautadas na ética e no compromisso de se construir uma sociedade mais justa, generosa e responsável. Acreditar na possibilidade de contribuir para mudanças locais e planetárias por meio de atitudes individuais é a idéia central desta discussão. Pequenas escolhas já fazem grande diferença. O consumidor deve evitar o supérfluo, preferir produtos duráveis, que consumam menos energia, tenham pouca embalagem, façam bem à saúde, gerem renda para comunidades locais e promovam o desenvolvimento humano. Deve optar por produtos com selos de qualidade e por serviços de empresas certificadas. Se vários cidadãos agissem desta forma, com certeza teríamos outros produtos no mercado, outras empresas, outra sociedade.

É importante considerar o impacto deste perfil de consumo. Um consumidor responsável precisa ter vontade, informação e capacidade de decisão autônoma. Não pode ser influenciado pelas imposições da mídia, nem apelos de propagandas. Deve fazer uma opção de compra segundo critérios próprios, baseado no julgamento sobre suas necessidades pessoais e levar em consideração fatores como a real necessidade de determinado produto, satisfação com relação ao preço, qualidade, procedência e impacto no ambiente. O consumidor responsável deve raciocinar de forma diferente, tanto na hora de comprar, quanto na hora de consumir. Mudar pequenas atitudes no dia-a-dia é o começo para uma grande transformação. Evitar o desperdício é o início de todo o processo.

Reduzir, reutilizar, reciclar
O consumo responsável inicia com três importantes ações cotidianas, conhecidas como os três “R”s.

Reduzir o lixo em nossas casas e locais de trabalho, diminuindo o consumo do que não é realmente necessário. Isto implica, entre outras atitudes, rejeitar os produtos com excesso de embalagens, principalmente plásticas ou de isopor, e optar pelas de papelão, que são recicláveis, não poluem o ambiente e gastam menos energia para serem produzidas; utilizar os dois lados das folhas de papel; e preferir copos de vidro ao invés dos descartáveis.

Reutilizar significa usar um produto de várias maneiras. Como exemplo, podemos reutilizar recipientes de plástico ou vidro para outros fins, como plantar ou fazer brinquedos; reutilizar envelopes, colocando novas etiquetas adesivas sobre os endereços do remetente e destinatário; e doar roupas e outros objetos em bom estado que não são mais utilizados.

Reciclar é lidar com o lixo de maneira que reduza o seu volume, reciclando tudo o que for possível: papéis, papelão, plásticos, vidros e metais. Este processo consiste em fazer coisas novas a partir de usadas. A reciclagem reduz o volume do lixo, contribui para diminuir a poluição e a contaminação do solo e ajuda a economizar matéria-prima e energia usada para fabricação de outros produtos.

O poder de transformar o mercado
A atitude do consumo consciente está intrinsecamente ligada à responsabilidade social empresarial. É importante lembrar que esta questão engloba temas relacionados a ações da empresa voltadas à proteção do meio ambiente, à não utilização do trabalho infantil, à saúde dos seus trabalhadores, à relação com os colaboradores e ao respeito com os consumidores.

Preocupar-se em verificar a procedência dos produtos e o impacto sócio-ambiental gerado por determinada empresa é uma ação muito importante neste contexto. Individualmente, as conseqüências das escolhas dos consumidores podem parecer insignificantes, mas se somadas às decisões de muitos consumidores fazendo escolhas informadas, o impacto pode ser grande. O consumidor precisa demonstrar sua insatisfação na hora da compra. Banir determinados produtos é uma forma de punir as empresas que não são responsáveis. Atitudes como estas influenciam cada vez mais o comportamento empresarial.

As empresas já respondem às necessidades do mercado interno e, principalmente, externo. Estão em busca de desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente sustentáveis. Procuram legitimidade através de certificações e participação em ações como o Pacto Ambiental. Alguns empresários têm consciência do poder das empresas em intervir e contribuir para a transformação da sociedade. E assim o ciclo se fecha. “O consumidor passa a ter consciência sobre seus direitos individuais e a empresa avança na busca da qualidade. O consumidor avança na direção da consciência com relação ao coletivo e a empresa progride no sentido da responsabilidade social. Um processo dialético, no qual se tem uma espiral evolutiva na relação do consumidor com as empresas e das empresas com a sociedade”, comenta Ricardo Young, empresário e presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos.

Esta nova realidade de mercado se baseia em três pontos fundamentais: no consumidor, nas empresas e nas políticas públicas. O consumidor deve estar consciente de que pode exercer seus direitos, merece consumir produtos mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e, ainda, as empresas têm uma grande responsabilidade para com o futuro das próximas gerações. Por conseqüência, as empresas devem atender à demanda que surge a partir das mudanças de conduta dos consumidores, passar a praticar ações sociais e ambientalmente responsáveis e incorporar valores éticos em seus compromissos. E o governo deve desenvolver políticas públicas a fim de alertar, educar e envolver o cidadão nesta mudança de consciência. Também deve fazer com que as empresas consigam realizar suas ações de responsabilidade de forma eficiente, além de criar subsídios para produtos que beneficiem a sociedade como um todo.

Selos e certificações
Além de atitudes ambientalmente corretas no dia-a-dia, o consumidor consciente deve preferir produtos provenientes de empresas que tenham certificação ou selos de responsabilidade, que asseguram um padrão de produção sustentável. Mas os consumidores ainda não possuem informação suficiente para saber quais empresas são socialmente responsáveis. O trabalho da mídia é importante neste processo, mas é preciso cuidar para não cair na propaganda enganosa do marketing social e ecológico.

Entre as certificações empresariais mais utilizadas no Brasil existem as da série ISO (International Organization for Standardization) para a Gestão da Qualidade (ISO 9000) e Gestão Ambiental (ISO 14000). Para os produtos provenientes de florestas existe o selo FSC (sigla em inglês para Forest Stewardship Council, que significa Conselho de Manejo Florestal), que garante a origem da madeira ou de outro insumo florestal. O selo prova que determinado produto é oriundo de uma floresta manejada de forma ecologicamente adequada, socialmente justa e economicamente viável, produzido dentro de todas as leis vigentes. Quanto à certificação de alimentos existem mais de quinze selos para produtos orgânicos, mas ainda não existe nenhuma rotulagem para os produtos que utilizam transgênicos. Quanto ao consumo de energia, o Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) certifica os eletrodomésticos que consomem menos energia.

Com relação à certificação de responsabilidade sócio-ambiental, o que existe hoje é o Selo Internacional Social Ambiental Chico Mendes, que identifica e avalia os casos sociais e ambientais relevantes para a cultura de uma nova gestão empresarial, e o selo Empresa Amiga da Natureza emitido pelo Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza e conferido às empresas com responsabilidade nesta área. Os selos e as certificações servem para orientar o consumidor a optar por produtos e empresas que não degradam o meio ambiente e que contribuem para o desenvolvimento social e econômico da sociedade.

O Pacto Global
Na busca de uma economia global sustentável e inclusiva, o secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, convidou o setor privado mundial, atores sociais e as agências das Nações Unidas para avançar na prática da responsabilidade social corporativa. As discussões em torno do tema resultaram no Pacto Global.

O objetivo deste pacto mundial é encorajar o alinhamento das políticas e práticas empresariais com os valores e os objetivos aplicáveis internacionalmente e acordados universalmente. O Pacto Global se baseia nos princípios dos Direitos Humanos, dos Direitos do Trabalho e da Proteção Ambiental. Neste contexto, as empresas devem buscar a melhoria da qualidade de vida dos seus funcionários e da comunidade, sem esperar que o poder público o faça. O Pacto Global enfatiza o apoio contínuo às instituições multilaterais e a implementação dos valores globais no âmbito da empresa. Mais de 1.500 empresas no mundo já aderiram ao acordo, entre elas, 241 brasileiras. O que une a maioria destas empresas neste projeto é a percepção de que construir uma reputação a partir da responsabilidade sócio-ambiental é mais vantajoso do que construir uma imagem mercadológica. Esse engajamento já se reverte em lucros no mercado internacional.

Os dez princípios do pacto global

Direitos Humanos
1- Respeitar e proteger os direitos humanos.
2 – Impedir violações de direitos humanos.

Direitos do Trabalho
3 – Apoiar a liberdade de associação no trabalho.
4 – Abolir o trabalho forçado.
5 – Abolir o trabalho infantil.
6 – Eliminar a discriminação no ambiente de trabalho.

Proteção Ambiental
7 – As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva para os desafios ambientais.
8 – As empresas devem assumir iniciativas para promover uma maior responsabilidade ambiental.
9 – As empresas devem encorajar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias ambientalmente sustentáveis.

Contra a Corrupção
10 – Combater a corrupção em todas as suas formas, inclusive extorsão e suborno.

por Anna Elisa Nicolau dos Santos
Redação EcoTerra Brasil

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